Vou tomar café!
Exposição: 6 a 13 de Maio de 2026 – Project Room
Universidade Lusófona, Lisboa, Portugal.
Ir “tomar café” representa um ritual quotidiano ao qual não prescindo. Preciso desses momentos a sós com o meu caderno em locais, onde, por um lado, está o movimento exterior; do mundo; do tempo e dos outros, e por outro, o movimento interno, dos meus pensamentos e consciência.
Situação-dispositivo*:
Na semana anterior à exposição, durante cinco manhãs, sentei-me na sala, pequena e fechada, do edifício de investigação da universidade Lusófona, face a uma janela espelhada do lado exterior: e tomei café.
Deixei-me levar, como numa deambulação, e deixei-me guiar pelas conversas internas que iam acontecendo: reflexões sobre a vida, sobre a passagem do tempo e as suas marcas.
No final, resultado de uma curadoria deliberada, dei visibilidade a alguns vestígios, — gestos, imagens e palavras, — que emergiram de um percurso no tempo (o tempo de tomar café).
* Mais do que uma performance ou instalação, este conjunto de gestos e experiência formaram uma situação-dispositivo, um mecanismo vivo para a revelação de imagens.
Texto de Orlando Franco:
quantas conversas profundas
“Ameaçado pelo tédio, resultado do pleno repouso, o homem tenta evitá-lo a todo o custo através do divertimento; quer dizer, através do movimento, da ‘distração’, da agitação, do ‘tumulto’, do bulício ou do jogo, que o ajudam a não pensar na sua miserável condição”
— Alain Corbin in História do Repouso
“Vivemos mergulhados num permanente apelo ao movimento, à ação, à produção. No mundo contemporâneo, mesmo os sinais que apontam para o descanso surgem contaminados pela lógica da atividade, pela exigência contínua de corpos em trânsito. Basta observar um aeroporto de qualquer cidade ocidental na época de férias. Parar exige planificação, implica fazer planos, resistir à velocidade dos corpos em circulação, implica também, aceitar uma fricção com o tempo dominante, com o ritmo dos outros.
Vou tomar café! de Filipa Rosa propõe desestabilizar esta dicotomia entre movimento e repouso. O próprio gesto de repousar, na sua forma verbal, já contém uma preparação, uma expetativa de ação. Tomar café introduz, porém, uma suspensão, um convite à desaceleração, à quietude do corpo, à concentração que se desloca para a observação e para a reflexão. Um momento de reorganização do mundo; do seu mundo, do seu dia, num tempo que se recusa a ser apenas instrumental.
O que encontramos neste Project Room é o vestígio de uma performance em que a artista se comprometeu, durante cinco manhãs, a tomar café nesta mesa, voltada para a rua. Curiosamente, este espaço assume-se como um simulacro de esplanada. Trata-se de uma sala interior, onde a mesa pousa para a janela envidraçada. O vidro, espelhado do lado exterior e transparente a partir do interior, permitiu à artista observar sem ser vista. Esta condição invisibilidade permitiu-lhe momentos de suspensão e recolhimento, perante o fluxo contínuo no exterior. Transeuntes que passam, carros que nunca deixam a estrada vazia, micro-acontecimentos que constituem a textura banal do quotidiano.
Nas palavras da artista: “Vou tomar café como forma de me centrar, de me preparar, de colocar o contador a zero e motivar-me para o que quero e tenho de fazer. É o momento de pensar no que foi feito. Fazer um balanço, por vezes pequeno, por vezes grande.” É neste intervalo, entre o quotidiano e as suas obrigações seculares, que se abre um território criativo, que a artista se propõe explorar: reflexões, anotações, desenhos.
A potência do trabalho emerge. Os elementos presentes tornam-se sujeitos singulares naquele lugar. São simultaneamente matéria de trabalho e objetos performativos, ativados por uma atenção prolongada ao longo de vários dias, que os permite ver para além da sua condição utilitária. O que aqui se apresenta não é um resultado fechado, mas a inscrição de um processo: desenhos, fotografias, marcas, manchas e rastos, que convocam uma pergunta insistente: De que modo consentimos que a força do quotidiano nos arraste para um movimento perpétuo de obrigações, utilidades e dispersões?
Ao paramos, por um instante, como aqui se propõe, tropeçamos na pergunta da artista: “Mas quantas conversas profundas entre amigos e amantes, de preencher o coração, não aconteceram precisamente em torno de um café?!”
Orlando Franco, 2026
Orlando Franco (1977) é artista plástico, curador independente, professor e mediador educativo. Doutorado em Arte dos Media pela Universidade Lusófona de Lisboa. (www.orlandofranco.com)













